São Carlos recebe, entre os dias 26 e 31 de outubro, mais uma edição da Semana Clóvis Moura: Pensamento, Cultura e Resistência, iniciativa dedicada à valorização da história e da cultura afro-brasileira, ao enfrentamento do racismo e ao fortalecimento das políticas de igualdade racial. Neste ano, a programação destaca os 50 anos do Centro de Cultura Afro-Brasileira Congada, organização histórica do movimento negro são-carlense, e conta com o apoio institucional do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Federal de São Carlos (NEAB-UFSCar).
A Semana foi instituída a partir de projeto de lei de autoria da vereadora Larissa Camargo (PCdoB), com o objetivo de ampliar o debate público sobre as relações raciais, reconhecer a contribuição da população negra para a formação da sociedade brasileira e promover atividades culturais, educativas e acadêmicas. A proposta foi aprovada pela Câmara Municipal em abril de 2025 e transformada na Lei Municipal nº 23.269, de 28 de abril de 2025.
A iniciativa homenageia Clóvis Moura, sociólogo, historiador, jornalista, poeta e escritor reconhecido por suas contribuições ao estudo das relações raciais no Brasil e por sua interpretação da resistência negra como elemento central da história brasileira.
Congada: cinco décadas de história e resistência
Fundado em abril de 1976, em São Carlos, o Centro de Cultura Afro-Brasileira Congada completa 50 anos em 2026. Ao longo de cinco décadas, a organização participou da construção de espaços de valorização da identidade negra, formação política, educação antirracista e mobilização social.
Sua trajetória está ligada à atuação de militantes, ativistas e lideranças negras que compreenderam a importância de criar espaços próprios de organização e expressão cultural. Entre os nomes associados à fundação e à consolidação da entidade está Casimiro Paschoal “Lumbandanga” da Silva.
O trabalho do Congada ultrapassou a dimensão cultural e alcançou a educação, a participação política, os direitos humanos e a produção de conhecimento. A entidade também atuou na defesa da presença da história e da cultura africana e afro-brasileira nas universidades públicas, contribuindo para mobilizações relacionadas ao fortalecimento dos estudos afro-brasileiros e à criação de espaços de pesquisa e formação.
A homenagem aos 50 anos reconhece a contribuição do Congada para a memória social e política de São Carlos e para a organização da população negra no município.
NEAB-UFSCar e a produção de conhecimento antirracista
A edição de 2026 também conta com o apoio institucional do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UFSCar, que completa 35 anos de trajetória. Fundado em 1991, a partir da articulação entre docentes, estudantes, servidores e militantes do movimento negro de São Carlos, o NEAB-UFSCar consolidou sua atuação na articulação entre ensino, pesquisa e extensão.
O Núcleo contribuiu para o desenvolvimento de estudos sobre relações étnico-raciais, a formação de educadores e a formulação de políticas públicas de educação antirracista. Entre suas atuações está a participação, em 2004, nas discussões que contribuíram para a construção das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana.
A trajetória do NEAB também se relaciona à luta pela democratização do conhecimento, à valorização de pesquisadores negros e ao enfrentamento do racismo nas instituições de ensino. Sua participação na Semana reforça a importância da articulação entre universidade, movimentos sociais e poder público na construção de uma sociedade comprometida com a igualdade racial.
Medalha Clóvis Moura reconhece trajetórias e contribuições
Um dos destaques da Semana é a entrega da Medalha Clóvis Moura, homenagem voltada ao reconhecimento de pessoas, iniciativas e trajetórias relacionadas à valorização da população negra e à luta antirracista.
Nesta edição, a programação incorpora também a celebração da história do Congada e dos 35 anos do NEAB-UFSCar. O documento institucional do Núcleo informa ainda que a Medalha Tesouro Vivo, originária do próprio NEAB, passa a integrar oficialmente o quadro permanente da Semana Clóvis Moura em São Carlos, com homenagens a gestores, coordenadores e pesquisadores que fizeram parte de sua trajetória.
A proposta é reconhecer não apenas personalidades, mas também o trabalho coletivo de quem contribui para a preservação da memória negra, a produção de conhecimento e a construção de políticas de equidade racial.
Cultura, memória e compromisso com o futuro
Com atividades previstas entre 26 e 31 de outubro, a Semana Clóvis Moura reúne diferentes expressões culturais e espaços de reflexão, com programação que contempla debates, oficinas, cinema, apresentações culturais e samba, além da cerimônia de entrega da medalha.
Ao reunir a história do Congada, a atuação do NEAB-UFSCar e o legado de Clóvis Moura, a edição de 2026 reafirma a importância de preservar a memória das organizações negras e reconhecer que as conquistas por direitos são resultado de décadas de mobilização coletiva.
A programação também busca aproximar a população da história afro-brasileira e estimular o diálogo entre gerações, instituições de ensino, movimentos sociais e agentes culturais.
A Semana Clóvis Moura: Pensamento, Cultura e Resistência reafirma, assim, o papel da cultura, da educação e da memória como dimensões fundamentais do enfrentamento ao racismo e da construção de uma sociedade democrática, plural e comprometida com a igualdade racial.


