_Do protocolo de morte encefálica à decisão da família, o processo se conecta à rotina de pacientes elegíveis para transplante renal_
Quatro horas por sessão, três vezes por semana. Essa é a rotina dos pacientes em hemodiálise atendidos pelo Serviço de Nefrologia da Santa Casa de São Carlos. Entre eles, 103 são elegíveis para um transplante renal.
Para esses pacientes, a possibilidade de um novo rim acontece junto com um tratamento que ocupa uma parte fixa da semana. A doação de órgãos, porém, depende de uma cadeia que começa em outro lugar: no protocolo para confirmação da morte encefálica de um potencial doador.
Entre janeiro de 2022 e setembro de 2026, foram realizadas 48 captações na instituição. Só neste ano, os pacientes acompanhados pelo Serviço de Nefrologia já realizaram, em média, um transplante renal por mês.
A autorização da família é uma das etapas desse processo. Depois da confirmação da morte encefálica, os familiares são acolhidos e consultados sobre a possibilidade de doação. Conhecer a vontade da pessoa sobre o assunto pode fazer diferença em um momento de luto.
Flávia Serpa Marques é coordenadora da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT) e acompanha as diferentes etapas desse trabalho.
“Depois que a família autoriza a doação, começa uma grande articulação. A CIHDOTT aciona os profissionais de plantão e, junto à Organização de Procura de Órgãos (OPO) de Ribeirão Preto, acompanha as etapas necessárias para a captação. A OPO aciona a Central de Transplantes do Estado de São Paulo, que inicia a oferta dos órgãos às equipes dos hospitais captadores. É um trabalho que exige organização e agilidade e pode levar de 10 a 12 horas entre a oferta dos órgãos e a realização da cirurgia.”
Muitas captações acontecem durante a madrugada. Enquanto o procedimento é realizado no centro cirúrgico, profissionais de outras áreas organizam a chegada das equipes de outras instituições, os horários e os deslocamentos, sem interferir nas cirurgias eletivas e nos atendimentos de emergência.
Quando coração ou pulmão estão entre os órgãos captados, o tempo de isquemia torna o deslocamento ainda mais crítico. Nesses casos, SAMU e GCM participam do transporte terrestre, enquanto a FAB pode realizar o transporte aéreo dos órgãos até o serviço responsável pelo transplante.
A conversa sobre doação pode acontecer muito antes de uma situação de perda. Quando a vontade da pessoa é conhecida em vida, os familiares sabem o que ela desejava caso precisem tomar essa decisão.
Para o provedor da Santa Casa, Antonio Valério Morillas Junior, cada autorização representa uma decisão tomada pela família em um momento de dor e um trabalho que mobiliza profissionais dentro e fora do hospital.
“Cada família que autoriza uma doação merece nosso respeito e nossa gratidão. É uma decisão tomada em um momento de muita dor, e cabe a todos nós acolher essa escolha com cuidado. Também agradeço a cada profissional que participa desse trabalho, muitas vezes durante a madrugada, para que os órgãos possam seguir para quem aguarda um transplante.”

