Os golpes que
mataram Fagner Falcão de Oliveira Silva seguem um roteiro que já havia sido visto outras vezes dentro do sistema prisional paulista. Espancamento inicial, imobilização da vítima e, quando ela já não reage, a abertura do abdômen com objetos como espelhos quebrados, espetos e até cabos de vassoura quebrados.
Presos matam e abrem barriga de detento
A cena se repete em processos, obtidos pelo Metrópoles, e conecta Diogo Batista da Silva Claudino, o Corintiano, Sandro dos Santos, o Pesadelo, e Luan Soledade da Silva a uma sequência de homicídios marcados pela mutilação extrema de presos.
Foi com esse mesmo método que, segundo a
Polícia Civil, os três, ao lado de Helder Dionisio Alves Pereira, foram indiciados pelo assassinato de Fagner. A investigação aponta que o grupo “coleciona” episódios de violência brutal dentro de unidades prisionais, sempre com a mesma assinatura:
estripamento das vítimas.
Espancamento e abertura do abdômen
No caso de Fagner, o ataque começou com chutes na cabeça e socos sucessivos. A vítima caiu desacordada. É nesse momento, segundo registros policiais, que Diogo Batista da Silva Claudino passou a abrir a barriga do preso com um pedaço de espelho quebrado.
Há registro de tentativa de negociação para que a agressão cessasse. Não houve êxito. Com a vítima já sem reação, os envolvidos passaram a retirar partes dos órgãos internos, ainda com sangue, e utilizaram o material para escrever na parede do pavilhão a palavra “CANGAÇO”, uma referência à tática usada por quadrilhas para sitiar cidades, com armas de guerra, para realizar roubos a banco.
O cenário descrito no documento da Polícia Civil é de extrema violência e segue o mesmo padrão observado em outros homicídios atribuídos aos mesmos presos.
Presidente Prudente, março de 2024
Na madrugada de 14 para 15 de março de 2024, na Penitenciária “Wellington Rodrigo Segura”, em Presidente Prudente– interior paulista — o corpo do detento Anderson da Silva foi encontrado na cela 214, raio 2. Ele apresentava uma incisão profunda no pescoço e outra no abdômen.
As vísceras haviam sido retiradas e colocadas dentro de um balde. Policiais penais relataram que, ao retirarem o corpo para o corredor, Sandro dos Santos, o Pesadelo, teria afirmado: “Matamos o mano aí, senhor”.
Inicialmente, outro preso assumiu sozinho a autoria, mas depoimentos posteriores de detentos que alegaram ter sido ameaçados apontaram Diogo Claudino e Sandro como coautores. A Polícia Civil descreve a morte como marcada por “crueldade e barbárie”, com impossibilidade de defesa da vítima.
Repetição do método
Os documentos obtidos pelo
Metrópoles indicam que Diogo, Luan e Sandro já haviam sido vinculados a outros homicídios dentro do sistema carcerário paulista antes do episódio mais recente. Em todos eles, o padrão se repete com agressão coletiva, uso de armas brancas artesanais e abertura do abdômen da vítima.
As ocorrências se concentram em unidades prisionais do interior de São Paulo, em datas distintas, mas com dinâmica semelhante, o que levou investigadores a tratar os casos como conectados pelo mesmo grupo de autores.
Em um dos processos, a Polícia Civil ressalta que a repetição do método afasta a hipótese de crimes isolados ou impulsivos e reforça a existência de uma atuação reiterada e organizada dentro das unidades prisionais.
Ficha criminal
As certidões de antecedentes anexadas aos processos mostram que Diogo Batista da Silva Claudino, Sandro dos Santos e Luan Soledade da Silva acumulam passagens por crimes violentos, incluindo homicídios, tentativas de homicídio e delitos cometidos no interior de presídios.
Os três são descritos como reincidentes e, segundo a polícia, exercem forte intimidação sobre outros presos, o que dificulta a coleta de depoimentos e contribui para o silêncio inicial em torno dos crimes.
No caso de Presidente Prudente, a conversão da prisão em flagrante em preventiva foi fundamentada, entre outros pontos, no risco de que novas mortes fossem cometidas “como fator desencadeador de outras infrações no seio do sistema penitenciário”.
Violência atrás dos muros
A morte de Fagner, segundo os investigadores, não é um episódio isolado, mas parte de uma sequência de crimes que expõe a fragilidade do controle estatal dentro de alas prisionais dominadas pelo medo. A repetição do estripamento, da exibição das vísceras e da mensagem escrita com sangue compõe, para a polícia, um padrão de intimidação e afirmação de poder.
Nos processos, a brutalidade não aparece apenas como consequência da violência, mas como método deliberado. Um método que, ao se repetir, transforma homicídios em marcas de um mesmo grupo criminoso.